Happy-hour

Conversa da treta, o ruído ambiente não era muito. Estava virado para o corredor central, a olhar para nada, a descontrair lentamente na  cadeira baixa aveludada enquanto o Oscar à minha frente comentava algo passado na véspera. Foi por isso que o vi entrar, movimentos algo bruscos e desadequados a um bar calmo ao princípio da noite. Olhou para  a esquerda, virou-se para a direita, abriu o casaco comprido e na minha cabeça aconteceram três coisas ao mesmo tempo: vi a arma, ouvi um grito e o ruído metálico da arma a engatilhar, e numa reacção de medo puro decidi atirar-me para o chão.
Na queda para  a frente, entre a mesa, um parapeito e um balcão à direita, puxei com força o braço do Óscar e atirei com ele de costas, à minha frente, enquanto os tiros em explosão metálica e ensurdecedora varriam a sala, ouvi gritos e coisas a partirem-se à minha frente, tiros e coisas a partirem-se mais à esquerda, depois mais à esquerda ainda, depois silêncio. Fumo, cheiro a pólvora, gritos. A Susete estava petrificada, paralisada de pânico, sentada muito direita no mesmo sítio. Recordo que havia uns militares na mesa à direita da entrada, provavelmente um terá ripostado e acertou em cheio no tipo da metralhadora.  Pensei isto, soerguendo-me enquanto o pânico e a gritaria encheram o espaço. Houve um momento de movimento colectivo na direcção da porta, e depois no sentido inverso. Puxei a Susete pelo braço para cima do Óscar quando o outro tipo entrou aos gritos. "Outro!" pensei e agachei-me de novo.

Depois, nada.

Um apito doloroso nos ouvidos. A sensação de ter perdido a consciência por momentos, tal e qual como daquela baixa de tensão que me fez desmaiar e levou ao hospital há tempos. Difícil respirar, sinto cacos, pó cheiro a metal e a estuque, cheiro acre outra vez, pedaços de madeira, vidros, coisas pegajosas em cima de mim. Lentamente, tomei consciência de uma dor na perna. Não há luz, sinto o respirar ofegante dos meus colegas deitados à minha frente entre o parapeito e o balcão. A sensação de desorientação é igual àquela vez que tive o acidente de automóvel, depois de o carro parar, capotado. Coisas estranhas que passam pela cabeça quando se sofre um traumatismo qualquer, os meandros do pensamento são obscuros. Não encontro os óculos, não sei bem onde estou, a dor de cabeça agora sobrepõe-se a tudo.
A quebrar a escuridão, uma lanterna e depois outra; continuo surdo, sinto alguém a abanar-me, será o Óscar? Estava com ele, não era? Decido continuar deitado, fechar os olhos, não me mexer, maldito apito nos ouvidos.

A Susete foi numa ambulância primeiro que eu, esfumou-se na noite, nunca mais ouvi falar dela. Nós os três até não ficámos muito mal, segundo os noticiários do dia seguinte onze ficaram feridos gravemente, nove morreram. Estávamos a comemorar o final de mais um trabalho, nas duas semanas seguintes ainda estive um par de vezes com o Óscar a acabar umas papeladas. Mal falámos. Nunca mais o vi, nunca mais voltei àquela cidade. Para todos os efeitos, desapareci.

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